Um relatório do Ministério da Educação (MEC) revela que 54,4% dos universitários com filhos já trancaram a matrícula ou desistiram do curso para cuidar das crianças.
Os dados constam do Relatório do Grupo de Trabalho da Política Nacional de Permanência Materna no Ensino Superior, construído a partir de um questionário nacional respondido por 7.648 estudantes.
Na pós-graduação, o índice de interrupção chega a 36,4%. O número pode ser ainda maior na prática, já que a pesquisa ouviu apenas quem conseguiu retornar aos estudos, sem alcançar quem abandonou o curso de vez.
Confira, a seguir, quem são esses estudantes, as barreiras apontadas pelo levantamento e o que as novas leis preveem para mantê-los na universidade.
Quem são os estudantes com filhos na faculdade
Segundo o relatório do MEC, as mulheres já são 57,3% dos estudantes de graduação no país, conforme o Censo da Educação Superior. Ter o diploma ao alcance, porém, não significa condições iguais de permanência quando essas alunas também são mães.
Foi para entender essa realidade que o Ministério da Educação instituiu, em novembro de 2023, o Grupo de Trabalho da Política Nacional de Permanência Materna.
Formado em boa parte por coletivos de mães universitárias, o grupo aplicou um questionário nacional respondido por 7.648 estudantes das cinco regiões do país. Entre os participantes, 86,5% eram mães e 13,5%, pais.
O perfil de quem cursa a graduação com filhos ajuda a dimensionar o desafio:
- Idade: média de 33 anos, bem acima da faixa de até 24 anos que predomina entre os universitários;
- Maternidade solo: presente em 43,9% dos casos;
- Filhos: a maioria tem apenas um (59,6%);
- Cor/raça: 60,2% se declaram negros (pretos e pardos);
- Instituição: 79,5% estudam na rede pública federal, a maioria à noite;
- Renda: 16,1% vivem sem qualquer rendimento e 24,6% têm até um salário mínimo.
Esses números revelam um público marcado pela vulnerabilidade social, que precisa equilibrar estudo, trabalho e cuidado com os filhos ao mesmo tempo.
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O relatório mostra que a estrutura das instituições não acompanha essa realidade. Sem espaço adequado, muitos estudantes acabam improvisando o cuidado dos filhos dentro da própria faculdade. Os dados ajudam a entender o tamanho do problema:
- Falta de estrutura: 66,2%, ou dois em cada três estudantes, dizem que a instituição não oferece nenhum espaço de apoio à parentalidade, como fraldário, brinquedoteca, creche ou sala de amamentação;
- Crianças em sala: 61,7% dos graduandos já precisaram levar os filhos para dentro da instituição por falta de alternativa.
A alimentação das crianças é outro gargalo. O acesso ao restaurante universitário, que poderia aliviar o orçamento das famílias, esbarra em restrições e na falta de informação:
- Sem direito à refeição: 51% dos graduandos afirmam que os filhos não podem comer no restaurante universitário;
- Gratuidade rara: apenas 7,1% conseguem a refeição de graça para as crianças;
- Desinformação: 30,3% sequer sabem se esse direito existe, o que expõe falhas na comunicação das instituições.
O peso do trancamento e do abandono
A interrupção dos estudos é o retrato mais grave dessa rotina. Quando a maternidade ou a paternidade se soma à falta de apoio, trancar o curso vira, muitas vezes, a única saída. O relatório associa esse movimento a atrasos na formação, prejuízos profissionais e impactos emocionais.
Para o grupo do MEC, os dados não descrevem casos isolados, mas um padrão de exclusão silenciosa que atinge sobretudo as mães e aprofunda desigualdades de gênero e classe no ensino superior.
Na pós-graduação, o perfil muda
Entre estudantes de mestrado, doutorado e especialização, o retrato socioeconômico é diferente do observado na graduação. O grupo é mais velho e tem melhores condições de renda, como mostram os dados do relatório:
- Idade: média de 38,1 anos;
- Cor/raça: a maioria se declara branca (56,1%);
- Estado civil: 50,6% são casados;
- Renda: 38,9% vivem com até cinco salários mínimos.
Ainda assim, condições melhores não eliminam o problema. Conciliar a criação dos filhos com as exigências da pós-graduação segue sendo um obstáculo para concluir o curso, prova de que a falta de apoio atravessa todos os níveis do ensino superior.
O que as leis já preveem
Durante anos, o único amparo legal foi a Lei nº 6.202/1975, restrita a estudantes gestantes. Esse cenário mudou recentemente, com um conjunto de leis voltadas à permanência de estudantes com filhos:
- Lei nº 14.914/2024: criou a Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) e, dentro dela, o Programa de Permanência Parental na Educação (Propepe), voltado a estudantes com filhos de até seis anos em instituições federais, com foco em espaços de acolhimento infantil;
- Lei nº 14.925/2024: garante a prorrogação de prazos de cursos de graduação e pós por, no mínimo, 180 dias em caso de parto, adoção ou guarda judicial;
- Lei nº 15.124/2025: proíbe critérios discriminatórios contra estudantes e pesquisadores por gestação, parto ou adoção nas seleções de bolsas de estudo e pesquisa, incluindo perguntas sobre planejamento familiar.
Juntas, essas normas representam um avanço, mas o próprio relatório do MEC pondera que a aplicação ainda é desigual: poucas instituições têm regras internas que garantam, na prática, o pleno uso desses direitos.
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