O fenômeno conhecido como “bets”, apostas online que se popularizaram no Brasil, não apenas revolucionou o entretenimento digital como também desencadeou preocupações sérias envolvendo saúde mental e bem-estar financeiro.
No intervalo de apenas três anos, os gastos com apostas cresceram mais de 500%, impactando famílias, economia e, de maneira alarmante, o próprio funcionamento cerebral dos apostadores.
Entenda como essa explosão de interesse por apostas molda o cérebro, agrava quadros de dependência e pode ser o gatilho para uma sequência de prejuízos pessoais e sociais.
O salto dos gastos com apostas online e suas consequências econômicas
De acordo com estudos recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a cifra mensal dispendida em apostas online saltou de menos de R$ 5 bilhões para R$ 30 bilhões desde a regulamentação das plataformas em 2023.
Esse crescimento vertiginoso reflete, por um lado, o apelo irresistível das apostas – promovidas de forma massiva em eventos esportivos, redes sociais e ambientes digitais – e, por outro, o aumento considerável do número de famílias endividadas.
Hoje, mais de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, com a inadimplência severa aumentando especialmente entre pessoas de menor renda. O impacto recai sobre quem já estava no vermelho, estendendo o tempo de atraso e dificultando a quitação dos débitos.
Famílias de até cinco salários mínimos são as mais afetadas, já que o orçamento é mais restrito, tornando-se ainda mais vulneráveis diante da promessa de ganhos rápidos oferecida pelas plataformas de apostas.
Mudanças neurológicas provocadas pelas apostas: o circuito de recompensa alterado
O vício em apostas compartilha mecanismos cerebrais semelhantes aos de outras dependências, como álcool, drogas ou compras compulsivas. O cérebro humano possui o chamado sistema límbico, um circuito responsável pela sensação de recompensa e prazer.
Sempre que realizamos uma atividade prazerosa, há liberação do neurotransmissor dopamina nessa região — fundamental para nossa sobrevivência e evolução como espécie.
Contudo, as apostas são capazes de elevar drasticamente a liberação de dopamina, estabelecendo novos padrões de satisfação química. Em vez da satisfação ordinária, típica de uma situação agradável cotidiana, o apostador passa a sentir picos intensos de prazer, incentivando a repetição do comportamento.
Isso distorce a cognição do indivíduo e gera a necessidade constante de buscar o estímulo das apostas, tornando-se cada vez menos sensível a outras fontes de recompensa.
Desorganização dos circuitos de decisão e controle
Além do sistema límbico, regiões responsáveis pelo julgamento, autocontrole e tomada de decisões — como o córtex pré-frontal e o córtex cingulado anterior — ficam comprometidas.
Estudos divulgados pela Associação Brasileira de Psiquiatria mostram que, em apostadores patológicos, há redução na atividade dessas áreas, dificultando avaliações racionais sobre gastos, riscos e consequências.
Como resultado, decisões impulsivas tornam-se frequentes: o indivíduo aposta mesmo quando sabe que não deveria, compromete dinheiro das contas básicas e busca repetir a sensação de prazer a qualquer custo.
Com o avanço da dependência, a exposição contínua a notificações dos apps de apostas intensifica o ciclo compulsivo, tornando o vício ainda mais difícil de ser rompido.
Por que nem todos desenvolvem vício? Fatores de vulnerabilidade
Nem todas as pessoas que fazem apostas regularmente desenvolvem transtorno do jogo. Segundo pesquisas internacionais, a prevalência do transtorno está entre 0,4% e 2% da população adulta — número que tende a crescer nos grupos que apostam com maior frequência, atingindo até 15% neste universo.
Fatores como predisposição genética, início precoce da prática (antes dos 18 anos), presença de transtornos psicológicos como depressão, e o tipo de aposta realizada influenciam o risco de desenvolver o vício.
A praticidade dos aplicativos, disponíveis a qualquer hora e lugar, e a possibilidade de apostas instantâneas aumentam o tempo de exposição e a intensidade do estímulo. Este cenário favorece quadros de compulsão principalmente entre pessoas mais jovens ou emocionalmente vulneráveis.
Sinais de alerta e diagnóstico do transtorno do jogo
A Associação Americana de Psiquiatria descreve critérios claros para identificar o transtorno do jogo: necessidade crescente de apostar valores maiores, tentativas fracassadas de parar, inquietação ao reduzir o jogo, uso das apostas como válvula de escape para problemas ou emoções negativas, perseguição de perdas (“dobrar” para recuperar o dinheiro perdido) e mentiras para ocultar o envolvimento real.
Não raro, pessoas próximas (amigos e familiares) desempenham papel fundamental na identificação e início do tratamento, pois o apostador frequentemente nega ou camufla a gravidade da situação. O prejuízo se estende para o contexto econômico e familiar, provocando desestruturação das relações e agravamento das dívidas.
Possibilidades de tratamento e prevenção
O tratamento do transtorno do jogo geralmente inicia com psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, que auxilia na reorganização dos pensamentos e comportamentos disfuncionais.
Entrevistas motivacionais ajudam a avaliar o grau de consciência do problema, possibilitando ações que vão desde o reconhecimento da dependência até estratégias para evitar recaídas.
Medicamentos, como antagonistas opioides, podem auxiliar em alguns quadros, sempre sob prescrição médica. Grupos de apoio, como Jogadores Anônimos, também são recomendados e têm se mostrado fundamentais na superação da dependência. O suporte familiar e social é indispensável para aumentar as chances de recuperação e reintegração.
Implicações sociais e desafios futuros
Com o patrocínio massivo das bets em eventos esportivos e sua presença crescente na cultura digital, cresce a preocupação com o cenário de saúde pública nos próximos anos. Clínicas especializadas no tratamento da dependência experimentam aumento exponencial na demanda por atendimento, com filas que podem triplicar em períodos de maior exposição midiática ao tema.
Especialistas defendem que a regulamentação responsável do setor — assim como já ocorre com bebidas alcoólicas e tabaco — pode ser um caminho para equilíbrio. Investimentos em políticas públicas de prevenção, campanhas educativas e ampliação da rede de saúde mental são essenciais para lidar com o crescimento do vício e seus impactos econômicos e sociais.
O desafio não está apenas em conter os prejuízos já instalados, mas em construir uma abordagem equilibrada capaz de proteger, principalmente, os grupos socialmente mais vulneráveis ao apelo das apostas digitais.
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