Opinar sobre tudo virou quase reflexo automático em 2026, e esse hábito tem cobrado um preço alto na saúde mental dos brasileiros. A psicóloga sanitária Laia Milanesi afirma que existe um caminho simples para reduzir irritações diárias: aprender a não ter sempre uma opinião.
A ideia pode soar estranha num cenário em que redes sociais premiam quem comenta mais rápido, mas dialoga diretamente com o que estoicos e mestres budistas defendem há séculos.
Evitar conflitos: o que a psicóloga Laia Milanesi realmente propõe
Laia Milanesi é psicóloga geral sanitária e especialista em saúde mental. Em uma publicação no TikTok, ela afirmou que o segredo para não se irritar nem se ofender constantemente está em aprender a não ter sempre uma opinião sobre tudo.
A proposta chama atenção porque vai na contramão do comportamento mais comum nas redes. Hoje, abrir o aplicativo e comentar uma notícia, a roupa de alguém ou uma decisão política acontece em segundos. Segundo Milanesi, esse automatismo é justamente o que gera boa parte do desgaste emocional do dia a dia.
Não opinar não significa ser indiferente
A especialista faz uma distinção importante. Deixar de opinar não é concordar com tudo nem fingir que os assuntos não importam. Trata-se, segundo ela, de escolher em que vale a pena gastar energia mental.
A frase que resume a ideia foi dita pela própria psicóloga: “No fim, não se trata de concordar com tudo, mas de escolher em que vale a pena gastar nossa energia”.
Por que o hábito de opinar sobre tudo aumentou tanto
Existem dois fenômenos que ajudam a explicar por que comentar virou reflexo. O primeiro é o chamado efeito Dunning-Kruger, que descreve a tendência de pessoas com pouco conhecimento sobre um tema acreditarem que dominam o assunto. O segundo é a estrutura das próprias redes sociais.
A psicóloga Marta Mozas Alonso, em entrevista à Ethic, observou que plataformas como o X oferecem apenas 280 caracteres, o que incentiva opiniões curtas e imediatas, mesmo sem conhecimento real sobre o tema debatido. Esse formato premia velocidade, não reflexão.
O papel dos algoritmos nas discussões
Os algoritmos das redes sociais também entram nessa conta. Eles selecionam conteúdos com base no comportamento de cada usuário e criam os chamados filtros-bolha, que limitam a diversidade de opiniões e amplificam posicionamentos extremos.
Esse mecanismo contribui para a propagação de discursos mais agressivos e afeta principalmente o público mais jovem.
O que estoicismo e budismo dizem sobre opinar menos
A proposta de Milanesi não é nova. Tanto o estoicismo quanto o budismo trabalham essa ideia há mais de dois mil anos.
A visão estoica segundo Epicteto e Marco Aurélio
Epicteto, no Enquiridion, afirmou que não são as coisas que perturbam as pessoas, mas as opiniões que elas formam sobre essas coisas. A lógica é simples: o fato em si é neutro. O que gera raiva, frustração ou ansiedade é a interpretação que cada um faz dele.
Marco Aurélio seguiu a mesma linha em Meditações. Ele escreveu que sempre existe a opção de não ter uma opinião sobre algo que não se pode controlar. Essas coisas, segundo o imperador romano, não pedem para ser julgadas.
O conceito budista de não apego
O budismo chega em conclusão parecida por outro caminho. A noção de não apego ensina que, quando alguém não se prende a uma opinião ou a uma identidade fixa, as palavras e ações dos outros perdem o poder de ferir.
Segundo o Dhammapada, quem não se deixa levar por opiniões encontra a paz. Nas duas tradições, silenciar não é sinônimo de omissão, mas de liberdade interior.
Evitar conflitos na prática: como aplicar isso no dia a dia
Transformar essa filosofia em hábito exige pequenos ajustes no comportamento cotidiano. Alguns pontos ajudam a colocar a ideia em prática:
- Observar antes de reagir: esperar alguns segundos antes de responder a um comentário irritante reduz respostas impulsivas.
- Perguntar se vale a pena: nem todo debate merece tempo e energia mental.
- Separar o fato da interpretação: notar quando uma opinião surgiu sozinha, sem pedido real de posicionamento.
- Reduzir o tempo em ambientes polêmicos: limitar o uso de redes sociais em momentos de cansaço ou irritação.
- Aceitar que silêncio não é fraqueza: em muitos contextos, não responder é a escolha mais madura.
Quando ainda vale a pena se posicionar
Milanesi não defende silêncio absoluto. Situações que envolvem direitos próprios, segurança, valores inegociáveis ou decisões importantes continuam pedindo posicionamento claro. O ponto é diferenciar o que exige opinião do que apenas parece exigir.
Para mais conteúdos como esse, acesse o Blog Pensar Cursos.






