Aquele controle nas mãos aos 35 anos pode ser o melhor remédio que ninguém receitou para o cérebro aos 70.
A afirmação parece exagerada, mas tem respaldo científico. Pesquisas em neurociência indicam que adultos que mantêm o hábito de jogar videogame estão construindo uma espécie de poupança mental, invisível agora, mas decisiva décadas depois. A Western University, no Canadá, chegou a medir o efeito: jogadores frequentes apresentam capacidade cognitiva equivalente à de pessoas 14 anos mais jovens.
E não se trata de qualquer estímulo. O videogame combina raciocínio rápido, memória, planejamento e coordenação em uma única atividade, algo raro entre os passatempos mais comuns.
O que a psicologia diz sobre o cérebro de quem joga videogame
A relação entre videogame e desenvolvimento cognitivo deixou de ser tema de discussão entre pais e filhos para virar objeto de estudo sério em universidades.
Os jogos exigem do jogador uma série de habilidades simultâneas: tomada de decisão rápida, memória de curto prazo, raciocínio espacial, planejamento estratégico e coordenação motora. Esse pacote é dificilmente encontrado em outras atividades de lazer.
Segundo dados de uma pesquisa da Western University, no Canadá, quem joga videogame por pelo menos cinco horas semanais apresenta capacidade cognitiva equivalente à de pessoas com 14 anos mais jovens. O estudo, batizado de “Brain and Body”, analisou 2.000 participantes em diferentes países.
Reserva cognitiva: o conceito-chave para entender o benefício
A chamada reserva cognitiva funciona como uma poupança neural. Quanto mais conexões o cérebro cria ao longo da vida, mais ele consegue compensar perdas naturais do envelhecimento.
Pessoas com alta reserva cognitiva tendem a desenvolver sintomas de doenças como o Alzheimer mais tardiamente, mesmo que o quadro neurológico já esteja em andamento. A explicação está nas redes alternativas que o cérebro construiu durante a vida ativa.
Jogar videogame regularmente é um dos hábitos que alimentam essa reserva, ao lado da leitura, do aprendizado de idiomas e da prática musical.
Por que a faixa dos 30 e 40 anos é decisiva
Esse período da vida costuma ser apontado por neurologistas como uma janela importante para consolidar hábitos cognitivos.
Aos 30 ou 40 anos, o cérebro ainda mantém boa plasticidade, mas já começa a apresentar pequenas perdas naturais. Continuar exercitando funções como atenção sustentada, memória de trabalho e raciocínio lógico nesse momento ajuda a preservar essas habilidades por mais tempo.
O cérebro adulto continua se transformando
Durante muito tempo, acreditou-se que o cérebro parava de se desenvolver depois da adolescência. A neurociência moderna derrubou essa ideia.
A neuroplasticidade, ou seja, a capacidade do cérebro de criar novas conexões, se mantém ativa por toda a vida. Atividades desafiadoras estimulam esse processo, e os jogos eletrônicos são alguns dos exemplos mais completos.
Quais tipos de jogo trazem mais benefícios cognitivos
Nem todo jogo tem o mesmo efeito sobre o cérebro. Estudos publicados na revista NeuroImage em 2024 indicam que títulos com maior complexidade cognitiva trazem ganhos mais consistentes.
Os jogos mais associados a benefícios são:
- Estratégia em tempo real (como StarCraft II e Age of Empires): exigem planejamento e gestão de múltiplas variáveis
- Aventura e exploração (como The Legend of Zelda e Minecraft): trabalham memória espacial e resolução de problemas
- Quebra-cabeças complexos (como Portal e The Witness): estimulam raciocínio lógico
- RPGs com narrativa densa: ativam memória, leitura e tomada de decisão
- Jogos de tiro em primeira pessoa: aprimoram atenção visual e tempo de reação
Pesquisadores observam que os benefícios surgem quando o jogo apresenta desafio real. Títulos repetitivos ou simples demais não geram o mesmo efeito.
Tempo ideal de jogo para resultados positivos
A maior parte dos estudos aponta sessões de 30 a 60 minutos como faixa ideal. Tempo excessivo de tela pode trazer efeitos contrários, prejudicando o sono e aumentando sintomas de ansiedade.
Moderação e variedade são as palavras-chave para extrair o melhor que os jogos têm a oferecer.
O que esperar para o cérebro aos 70 anos
A grande aposta da neurociência é que a geração que cresceu jogando videogame e manteve o hábito chegará à terceira idade em condições mentais melhores que as gerações anteriores.
Daqui a algumas décadas, quando essa geração for analisada em larga escala, espera-se encontrar índices menores de demência precoce e melhor preservação de funções como memória e raciocínio. As evidências teóricas e os estudos já realizados sustentam essa expectativa.
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