Na Dinamarca, existe uma palavra que não tem tradução em nenhum outro idioma: arbejdsglaede. Ela une os termos “arbejds” (trabalho) e “glaede” (felicidade) e resume algo que dois em cada três trabalhadores escandinavos dizem sentir no dia a dia: satisfação real com o que fazem. Dados do Eurostat mostram que 58% deles sequer deixariam de trabalhar mesmo sem precisar do dinheiro.
No Brasil, o cenário é diferente. Segundo pesquisa da Infojobs, 56% dos profissionais brasileiros não se sentem felizes no ambiente de trabalho. Então, o que os dinamarqueses fazem de tão diferente? A resposta pode estar em um conceito simples, chamado “regra dos três metros“, criado por Meik Wiking, fundador do Happiness Research Institute e considerado pela revista The Times o homem mais feliz do mundo.
O que é a regra dos três metros?
A regra dos três metros aparece no livro Hygge Work, de Meik Wiking, e funciona assim: cada pessoa assume a responsabilidade pelo que acontece ao seu redor, dentro de um raio de três metros.
Na prática, se um colega precisa de ajuda e está a três metros de distância, a atitude esperada é ajudá-lo. A ideia não é carregar o peso de toda a equipe, mas sim cuidar ativamente de um pequeno espaço ao redor.
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Como funciona na rotina profissional
Wiking explica que essa regra cria um senso de autonomia e pertencimento. Em vez de esperar ordens ou depender de supervisão, cada profissional se torna “dono” daquele espaço limitado. O resultado é um ambiente onde todos se sentem responsáveis, sem que ninguém fique sobrecarregado.
Essa lógica vale para qualquer cargo. Do estagiário ao diretor, todos operam com o mesmo princípio: manter sua área organizada, ajudar quem está por perto e agir como um bom colega dentro daquele raio de três metros.
Por que a regra dos três metros funciona?
A eficácia da regra dos três metros está ligada a três pilares, de acordo com Wiking: responsabilidade, independência e senso de propósito. Quando uma pessoa sabe que tem controle sobre o que acontece ao seu redor, ela se sente mais engajada.
Pesquisas recentes reforçam essa ideia. O Índice de Felicidade e Engajamento no Trabalho de 2025, realizado pela Pluxee em parceria com a The Happiness Index, ouviu mais de 16 mil profissionais brasileiros e apontou que o indicador de felicidade subiu de 7,3 para 7,6 no último ano. Aspectos como reconhecimento (+6,2%) e crescimento pessoal (+6,3%) foram os que mais avançaram.
Ou seja, pequenas atitudes no ambiente de trabalho — como as propostas pela regra — têm impacto direto na satisfação profissional.
Felicidade no trabalho é responsabilidade individual
Wiking deixa claro que a felicidade no trabalho é responsabilidade de cada um. Esperar que o chefe ou os colegas façam algo para tornar o ambiente melhor é uma armadilha comum. A mudança começa com atitudes pessoais.
Cuidado com o positivismo tóxico
O especialista faz uma ressalva: essa abordagem não deve ser confundida com positivismo tóxico. Não se trata de acreditar que “tudo está bem” ou que “basta querer para ser feliz”. A proposta é mais prática: identificar o que está ao alcance e agir dentro dessas possibilidades.
Dados da sondagem do FGV IBRE de janeiro de 2026 mostram que 78,1% dos trabalhadores brasileiros se sentem satisfeitos com o trabalho atual — o maior índice da série histórica. Por outro lado, entre os insatisfeitos, 24,8% apontam questões de saúde mental como motivo de descontentamento.
Três hábitos para encontrar a felicidade no trabalho
Além da regra dos três metros, Alexander Kjerulf, autor do livro Happy Hour é das 9 às 5, propõe três práticas complementares para quem busca mais satisfação profissional.
O “bom dia nível 5”
A primeira prática é simples: dizer bom dia de verdade. Olhar nos olhos, conversar brevemente e demonstrar que a presença do colega é bem-vinda. Parece básico, mas faz diferença no clima do ambiente.
O exercício de gratidão diário
Antes de sair do trabalho, anotar três coisas boas que aconteceram durante o dia. Podem ser pequenas, como um elogio recebido ou uma tarefa concluída. Esse hábito treina o cérebro a perceber os aspectos positivos da rotina profissional.
Celebrar as conquistas
Quando algo dá certo, comemorar. Em vez de focar apenas nos problemas e no que falta corrigir, reconhecer os resultados positivos fortalece a motivação e o engajamento. Kjerulf defende que essa mudança de foco é uma das formas mais eficazes de construir satisfação no trabalho.
O que o modelo dinamarquês ensina ao Brasil
O ambiente de trabalho dinamarquês é considerado um dos mais satisfatórios do mundo. Parte desse resultado vem de uma cultura que valoriza a autonomia, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e a colaboração entre colegas.
No Brasil, a realidade ainda é desafiadora. A regra dos três metros não exige grandes mudanças estruturais. Ela depende de atitudes individuais que, somadas, transformam o clima organizacional. É o tipo de prática que pode ser adotada em qualquer empresa, independentemente do porte ou do setor.
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