25,9 milhões de jovens entre 18 e 29 anos já estão no mercado de trabalho brasileiro — e eles chegaram com uma visão diferente de tudo que veio antes. Para a geração Z, o trabalho tem um lugar definido na vida: é importante, mas não é tudo.
Essa postura divide opiniões, gera debates acalorados e está transformando, aos poucos, a forma como as empresas se organizam. Preguiça? Não. Mudança de valores.
O que é a mentalidade da geração Z no trabalho?
A geração Z rejeita o rótulo de preguiçosa. Esses jovens afirmam que querem — e até precisam — do trabalho. Mas a visão deles mudou: o trabalho não é a coisa mais importante de suas vidas.
Em poucas palavras: eles querem trabalhar para viver e não viver para trabalhar.
Essa nova forma de enxergar o mercado incomoda quem passou anos na mesma empresa, aceitando situações difíceis em silêncio. Ou quem, assim como os millennials, acreditou que bastava estudar em uma boa universidade para ter a vida garantida.
Quem são os nativos digitais?
Segundo o Instituto Pew Research Center, a geração Z é formada por pessoas nascidas entre 1997 e 2012 — hoje com 13 a 28 anos. O número de jovens da geração Z ocupando postos de trabalho só tende a crescer.
Em 2024, uma pesquisa da PNAD/IBGE mostrou que, dos quase 104 milhões de trabalhadores no Brasil, 25,9 milhões tinham entre 18 e 29 anos — ou seja, 25% do total de ocupados. Entre eles, 38,5% estavam na informalidade.
“Trabalho não define quem somos”: a identidade da geração Z
Uma das grandes diferenças dessa geração é a forma de se identificar com o trabalho. Pesquisas com os nativos digitais mostram que eles não se sentem representados pelo trabalho — diferente dos millennials. Para eles, há uma visão mais distanciada sobre o emprego em relação às gerações anteriores.
Matheus Gonçalves, 28 anos, geógrafo que trabalha com sustentabilidade em uma multinacional em São Paulo, resume bem esse sentimento: para ele, o trabalho não define a pessoa — não é um item da personalidade de ninguém.
Essa visão mais realista da vida, sem tanta idealização, já aparece em pesquisas e na fala de especialistas: a percepção dos jovens é de que, como as coisas mudam muito, não faz sentido dedicar toda a vida apenas ao trabalho.
O que os dados mostram sobre essa geração
Com base em pesquisa realizada pela empresa Alice, em parceria com BP, Grupo Fleury e Flash, com 1.046 pessoas de 16 a 29 anos no Brasil (setembro de 2024):
- 48,4% desejam uma postura mais flexível por parte do empregador.
- 74% entendem que o desenvolvimento profissional impacta o bem-estar pessoal.
- Quase 20% relataram problemas de saúde mental relacionados ao trabalho.
- Apenas 5,5% apontaram desequilíbrio entre vida pessoal e profissional como obstáculo.
Geração Z no mercado de trabalho: o que eles realmente querem?
Uma pesquisa da consultoria Michael Page, com cerca de 6,8 mil profissionais e empresas do Brasil em 2024, revela o que a geração Z prioriza:
- Salário: citado por 73% como o fator mais importante no emprego.
- Equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
- Progressão de carreira e treinamento.
- Liderança: 69% querem desenvolver essa habilidade.
- Trabalho híbrido ou remoto: 58% afirmam ser mais produtivos trabalhando de casa.
- Cultura inclusiva: 57% valorizam ambientes mais diversos.
O que mais causa estresse nos jovens trabalhadores
Ainda segundo a pesquisa Michael Page:
- 71% apontam remuneração incompatível com as exigências do cargo.
- 44% sofrem com a falta de perspectivas de carreira.
- 41% citam o excesso de trabalho.
Por que a geração Z pensa diferente das gerações anteriores?
Roberta R. Katz, antropóloga e pesquisadora do Centro de Estudos Avançados em Ciências Comportamentais da Universidade Stanford (EUA), analisa esse movimento. Ela destaca que os jovens observaram como as gerações anteriores trabalhavam sem parar, se aposentavam e morriam logo depois — e questionaram por que viver dessa forma.
Segundo ela, inicialmente muitas empresas resistiram às questões trazidas pelos jovens. Mas hoje algumas mudanças já foram incorporadas. A antropóloga orienta que o melhor caminho é ouvir antes de julgar — e que os mais jovens não aceitam respostas sem sentido.
O contexto que formou essa geração
A geração Z cresceu em um cenário específico, que explica muito de sua visão:
- Estagnação e recessão econômica
- Queda do poder de compra
- Crise climática e instabilidade política
- Vida marcada pela pandemia de Covid-19
- Acesso ilimitado à informação desde cedo
Esse conjunto de fatores formou jovens mais objetivos, preocupados com a saúde mental e que se enxergam como “sobreviventes de um mundo imperfeito”.
Como as empresas estão se adaptando à geração Z?
Antonio Paixão, diretor de RH de uma multinacional do agronegócio em São Paulo, acompanha de perto essa transformação. Na empresa onde atua, foi criado um painel mensal com integrantes da Gen Z: líderes, recém-contratados e pessoas de grupos de diversidade reúnem-se para discutir iniciativas e promover trocas.
Segundo ele, os nativos digitais são bastante disruptivos. Há processos que demorariam muito mais para evoluir e, com eles, a empresa ganhou mais agilidade — o que representa um benefício real.
Transparência como exigência, não como diferencial
Uma pesquisa realizada no Brasil pela empresa Alice mostrou que a geração Z preza muito pela transparência nas empresas: 34,2% querem comunicações transparentes. Para eles, as atitudes valem mais do que promessas vazias.
Isso significa que políticas de saúde mental, por exemplo, precisam ir além do papel. Os jovens cobram coerência entre o que a empresa diz e o que ela efetivamente pratica.
“Parece desinteresse, mas é preservação”
Erick Sales, 22, formado em jornalismo e que hoje trabalha com marketing, resume bem o que muitos da geração Z sentem: a fluidez e o desapego em relação à área de formação são características marcantes dessa geração — fazer uma transição de carreira é mais fácil, e é raro que alguém da Gen Z queira fazer a mesma coisa pelo resto da vida.
Na visão de Erick, não há preguiça — há uma mudança de valores. Para ele, trabalha-se para pagar contas, viajar e passar tempo com pessoas queridas. Isso pode chocar quem sacrificou muito em prol da carreira, mas o que parece desinteresse é, na verdade, preservação.
A “fórmula” que a geração Z recusou
O antropólogo Michel Alcoforado, fundador da consultoria Consumoteca, explica que a geração Z cresceu ao lado dos millennials e percebeu que a fórmula inventada para eles talvez não tenha funcionado tão bem assim.
Para ele, não existe mais nenhum mecanismo de reprodução social que garanta que trabalhar ou estudar demais coloca alguém mais perto do sucesso. Nada está garantido — e a geração Z simplesmente não aceitou essa lógica.
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