Algumas frases parecem inofensivas, mas carregam marcas profundas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um quarto de todos os adultos no mundo relatam ter sofrido algum tipo de abuso na infância.
No Brasil, uma pesquisa da Faculdade de Medicina da USP, em parceria com a Universidade de Bath, revelou que um terço dos diagnósticos de transtornos mentais em adolescentes está ligado a traumas vividos nos primeiros anos de vida.
E o mais preocupante: muitas dessas pessoas nem sabem que carregam essas feridas. Será que alguma dessas frases faz parte da sua rotina?
Como o trauma de infância afeta a identidade na vida adulta
A construção da identidade acontece ao longo de toda a vida. Entretanto, quando uma criança cresce em um ambiente de medo, negligência ou violência, o cérebro se adapta de forma diferente. O foco passa a ser a sobrevivência, e não o desenvolvimento saudável do “eu”.
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O cérebro moldado pelo medo
Estudos mostram que experiências traumáticas precoces alteram os circuitos cerebrais. Quanto mais cedo a criança vivencia a angústia, mais profundos e duradouros são os efeitos.
Na prática, a identidade do adulto que sofreu trauma de infância se organiza em torno da necessidade de se proteger — e não de crescer.
O ciclo da repetição
Essa dinâmica cria um padrão difícil de romper. De um lado, a pessoa revive situações desencorajadoras. De outro, evita experiências que poderiam trazer crescimento.
É como se ela ficasse presa a um modo de funcionamento que já não faz sentido, mas que foi a única forma de sobreviver quando criança.
Frases que indicam um trauma de infância não resolvido
Algumas expressões usadas no dia a dia podem revelar muito sobre feridas emocionais que ainda não foram tratadas. Veja quais são as principais, de acordo com especialistas em psicologia.
“Eu não tive uma infância”
Pessoas que viveram uma infância muito difícil costumam ter dificuldade para se lembrar dos primeiros anos de vida. É comum que elas digam frases como “não me lembro muito de quando era criança” ou “sinto que minha infância foi roubada”.
Por que isso acontece?
O cérebro pode bloquear memórias ligadas a experiências dolorosas como mecanismo de proteção. Essas pessoas podem guardar apenas fragmentos isolados — as chamadas “memórias flash” — sem conseguir montar uma história coerente sobre si mesmas. Sem esse fundamento, a identidade adulta fica comprometida.
“Sinto que falta alguma coisa em mim”
Crianças que passam por traumas frequentemente se desconectam de partes de si mesmas para suportar a dor. Na vida adulta, isso se traduz em uma sensação constante de vazio ou incompletude.
O mecanismo de compensação
Muitas vezes, essas pessoas desenvolvem grandes habilidades em determinadas áreas — como os estudos ou o trabalho — enquanto outras esferas permanecem estagnadas.
Em geral, são justamente aquelas ligadas às emoções, ao autoconhecimento e aos relacionamentos interpessoais.
“Eu me sinto mal quando penso em mim mesmo”
Quando o trauma de infância está ligado a figuras de referência — como pais ou irmãos — o simples ato de refletir sobre si se torna doloroso. A introspecção vira um lembrete das experiências difíceis.
Pessoas nessa situação podem aprender a viver desconectadas do próprio “eu”. Porém, isso costuma levar a comportamentos autodestrutivos ou a uma insatisfação profunda, já que elas não conseguem identificar o que realmente querem da vida.
“Eu sempre atraio pessoas que me machucam”
Não é raro que adultos com traumas da infância estabeleçam vínculos com pessoas emocionalmente indisponíveis, abusivas ou manipuladoras. Mesmo quando tentam fazer escolhas diferentes, acabam repetindo o padrão.
O ciclo da retraumatização
Isso acontece porque a pessoa encontra — de forma inconsciente — perfis que se encaixam na sua identidade marcada pelo trauma. É um ciclo de repetição do passado. Em alguns casos, ela assume o papel de “salvadora”, tentando consertar o outro.
Em outros, chega a acreditar que “é melhor ficar sozinha”, por já ter se decepcionado tantas vezes.
“As emoções só atrapalham”
Quando os sentimentos não tinham espaço na família de origem — com frases como “chorar é para os fracos” — a pessoa cresce sem conseguir reconhecer e lidar com suas próprias emoções.
Consequências da desconexão emocional
A desregulação emocional pode levar a decisões impulsivas, dificuldade nos relacionamentos e até explosões de raiva contida.
Muitas dessas pessoas descrevem uma espécie de “anestesia emocional”, em que só conseguem sentir emoções vagas como frustração ou tédio — porque nunca aprenderam a nomear o que sentem.
É possível superar um trauma de infância?
Sim. Embora as consequências dos traumas na infância sejam sérias, a reconstrução da identidade é possível. Esse processo envolve voltar ao passado para aceitar as experiências dolorosas, de modo que elas possam ser integradas à história de vida e, aos poucos, superadas.
Duas chaves para a recuperação
A primeira é entender que o adulto de hoje está seguro e não é mais aquela criança assustada. A segunda é reconhecer que, mesmo sendo adulto, é possível que ele ainda processe emocionalmente certas situações como se fosse criança. Perceber isso costuma ser libertador.
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