Cerca de 30% dos diagnósticos de transtornos mentais em adolescentes estão ligados a experiências traumáticas vividas na infância. O dado, publicado em 2025 na revista The Lancet Global Health por pesquisadores da USP e da Universidade de Bath (Reino Unido), reforça algo que a psicologia já observa há anos: o que acontece dentro de casa na infância não fica na infância.
Brigas familiares constantes durante os primeiros anos de vida moldam comportamentos, crenças e formas de se relacionar que acompanham a pessoa por décadas. E muitos adultos carregam esses traços sem perceber de onde eles vieram.
O que as brigas familiares na infância provocam no desenvolvimento emocional
O ambiente familiar é o primeiro espaço onde uma criança aprende sobre emoções, segurança e vínculos. Quando esse espaço é dominado por gritos, agressões verbais ou físicas e instabilidade, o cérebro da criança responde de forma protetiva.
1. Hipervigilância: o estado de alerta que não desliga
Como esse traço se manifesta
Pessoas que cresceram em lares com muitos conflitos frequentemente desenvolvem um estado de alerta constante. Esse comportamento nasce da necessidade de se proteger de ameaças — reais ou percebidas. Na prática, o adulto sente dificuldade em relaxar, mesmo em ambientes seguros.
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Segundo a psicóloga Lizandra Arita, essa sensação de estar sempre em guarda interfere na capacidade de confiar nos outros e gera tensão constante no corpo e na mente.
2. Dificuldade em estabelecer limites saudáveis
Por que isso acontece
Em casas com brigas familiares na infância, as necessidades emocionais das crianças costumam ser ignoradas. Sem referências de limites saudáveis, o adulto pode ter dificuldade em dizer “não” ou em reconhecer quando alguém ultrapassa uma limite.
A especialista destaca que essas pessoas podem sentir medo de rejeição ou simplesmente não saber como expressar suas necessidades de forma assertiva. Esse padrão afeta relações pessoais e profissionais de forma direta.
3. Medo excessivo de conflitos
Quem cresceu ouvindo gritos e presenciando explosões emocionais aprende, ainda criança, que conflitos são perigosos. Na vida adulta, esse aprendizado se transforma em uma tendência a evitar qualquer tipo de desentendimento — mesmo os saudáveis.
Essa pessoa costuma engolir opiniões, aceitar situações injustas e recuar diante de discussões por medo de que qualquer discordância acabe em uma explosão. Esse comportamento pode gerar frustração acumulada e dificuldade em defender os próprios interesses.
4. Sensação constante de culpa
O peso de se sentir responsável pelos problemas dos outros
Crianças expostas a brigas familiares frequentes muitas vezes acreditam que são responsáveis pelo caos ao redor. Na vida adulta, esse traço se transforma em uma cobrança excessiva sobre si mesmo e em um senso de culpa desproporcional.
De acordo com a psicóloga, esse padrão pode levar a pessoa a assumir responsabilidades que não são suas, inclusive pelos problemas emocionais de terceiros. O resultado? Esgotamento e dificuldade em separar o que é seu do que é do outro.
5. Dificuldade em confiar nas pessoas
A falta de estabilidade emocional em um lar conflituoso gera desconfiança generalizada. Adultos que passaram por isso tendem a esperar decepções e traições — mesmo de pessoas próximas e bem-intencionadas.
Esse traço de personalidade dificulta a construção de relacionamentos seguros e saudáveis. A pessoa pode se afastar antes de se vincular, ou testar constantemente o outro para confirmar que será abandonada ou magoada.
6. Propensão a relações tóxicas
Quando o caos se torna “normal”
Para quem cresceu em ambientes instáveis, relações tumultuadas podem parecer familiares — e, por isso, confortáveis de forma inconsciente. A psicóloga Lizandra Arita alerta que muitas dessas pessoas acabam buscando parceiros que reproduzem os padrões de instabilidade vivenciados na infância.
Esse ciclo pode resultar em relacionamentos abusivos ou desgastantes, sem que a pessoa perceba a repetição. Reconhecer o padrão é o primeiro passo para quebrá-lo.
7. Dificuldade em lidar com as próprias emoções
O estresse constante e as explosões emocionais frequentes em lares com brigas dificultam o desenvolvimento de habilidades emocionais equilibradas. Adultos com esse histórico podem ter problemas para identificar o que sentem, reprimir emoções até que transbordem ou reagir de forma desproporcional a situações cotidianas.
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