Cerca de 1 em cada 6 adolescentes brasileiros entre 10 e 19 anos convive com algum transtorno mental, segundo dados da UNICEF. O dado assusta, mas o que poucos percebem é que parte dessa realidade começa dentro de casa — em atitudes que pais e mães repetem sem perceber. A psicologia tem mapeado comportamentos parentais que, mesmo sem má intenção, podem minar a autoestima e a saúde emocional das crianças.
Um estudo publicado em 2025 na revista The Lancet Global Health analisou dados de mais de 4 mil jovens brasileiros e revelou que 30,6% dos diagnósticos psiquiátricos aos 18 anos estão ligados a experiências negativas vividas na infância. Ou seja, o ambiente familiar tem peso direto na formação emocional dos filhos. A seguir, veja quais atitudes dos pais podem tornar os filhos infelizes — e o que a psicologia sugere como alternativa.
Criticar o tempo todo não educa, apenas desgasta
O elogio seguido de “mas” não funciona
Frases como “foi bem na prova, mas poderia ter tirado nota máxima” parecem inofensivas. No entanto, quando até o reconhecimento vem acompanhado de uma ressalva, a criança entende que seu esforço nunca será suficiente. Com o tempo, ela pode se fechar, esconder falhas e desenvolver insegurança.
A psicologia recomenda separar o elogio da orientação. Primeiro, valorizar o esforço: “adorei sua dedicação!”. Depois, convidar a criança a refletir: “o que você faria diferente da próxima vez?”. Essa abordagem fortalece a autoconfiança sem gerar tensão.
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Invalidar emoções cria adultos que não confiam no que sentem
Dizer “não foi nada”, “para de chorar” ou “isso é bobagem” pode parecer uma forma rápida de acalmar a criança. Na prática, essas frases passam a mensagem de que certas emoções são proibidas. O resultado? A criança aprende a esconder o que sente, mas continua sentindo.
Quando um adulto diz “você está exagerando”, a criança pode interpretar como “não confie no que você sente”. Mais tarde, isso aparece na forma de dificuldade para identificar emoções, explosões de raiva ou um “está tudo bem” automático que mascara o sofrimento real.
Controle excessivo e a perda de identidade
Autonomia não significa ausência de limites
Planejar cada detalhe da vida dos filhos pode parecer cuidado. Porém, quando a criança não tem nenhum espaço para fazer escolhas — mesmo pequenas —, ela cresce sem saber do que gosta. A psicologia aponta que o controle excessivo pode gerar crises de identidade na adolescência e na vida adulta.
Dar autonomia é diferente de “deixar fazer tudo”. Significa oferecer opções dentro de limites claros. Em vez de “você vai fazer natação porque eu decidi”, experimentar: “quer continuar na natação ou prefere outra atividade?”. Os pais continuam sendo autoridade, mas nem toda decisão precisa partir deles.
Presença física sem conexão emocional
Há pais que estão presentes no dia a dia, mas emocionalmente distantes. Estão no mesmo ambiente, porém com a atenção no celular, no trabalho ou em suas próprias preocupações. A criança percebe essa desconexão.
Segundo especialistas, dez minutos de atenção total — olhar nos olhos, ouvir de verdade, perguntar sobre o dia — valem mais do que uma tarde inteira de presença física sem envolvimento afetivo. Crianças que se sentem ouvidas desenvolvem mais segurança e autoestima.
Intimidação não é ferramenta de educação
Gritos e ameaças geram medo, não aprendizado
Gritar, ameaçar ou humilhar pode até gerar obediência imediata. Mas a criança não aprende com isso — ela aprende a ter medo. A longo prazo, a intimidação faz com que os filhos passem a se esconder em vez de se responsabilizar por seus erros.
Vergonha não corrige. Ela marca. Quando a disciplina depende de intimidação, a criança desenvolve um estado de alerta constante e evita erros como se fossem perigos reais.
Comparações entre irmãos e primos prejudicam a identidade
Mesmo em tom de brincadeira, comparar filhos cria rótulos: “a inteligente”, “o desastrado”, “a criativa”. A criança passa a representar o papel que lhe foi dado. Com o tempo, essas etiquetas limitam a percepção que ela tem de si mesma.
A psicologia alerta que comparações durante conflitos são ainda mais prejudiciais. O ideal é reconhecer cada filho como um indivíduo único, com suas próprias qualidades e ritmo de desenvolvimento.
Parentificação: quando o filho vira o adulto da relação
O peso emocional que não pertence à criança
Conversar com os filhos é saudável. Mas transformar a criança em confidente de problemas adultos — brigas do casal, dificuldades financeiras, frustrações pessoais — é diferente. A criança sente que precisa “sustentar” emocionalmente o adulto e amadurece de forma precoce.
Esse fenômeno, chamado de parentificação, pode deixar marcas que duram anos: culpa crônica, dificuldade de dizer “não” e exaustão nos relacionamentos. É um dos padrões que mais aparecem em consultórios de psicoterapia.
Pedir desculpas não tira autoridade
Conflitos entre pais e filhos são naturais. O problema está em ignorar o que aconteceu e seguir em frente como se nada tivesse ocorrido. A criança fica confusa e, muitas vezes, assume uma culpa que não é dela. Pedir desculpas dá segurança. Mostra que errar é humano e que assumir responsabilidade faz parte de qualquer relação saudável.
Menosprezar medos atrasa a coragem
Os medos fazem parte do desenvolvimento de qualquer criança. Quando os pais tentam diminuir o que os filhos sentem — “isso não é nada”, “não tem motivo para ter medo” —, a mensagem que fica é de solidão. A criança entende que não pode contar com ninguém.
Por outro lado, crianças que se sentem apoiadas em seus medos tendem a se tornar mais confiantes com o tempo. Um ambiente familiar seguro acelera a coragem, não a fragilidade.
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